sexta-feira, 24 de março de 2017

Praças de Aracaju: o que os seus nomes revelam?

Foto da Praça Olímpio Campos, em Aracaju/SE.
Postada por MTéSERGIPE, para ilustrar artigo.
Publicado no Blog Ação Cultural SE., em 7 de abril de 2011.

Praças de Aracaju: o que os seus nomes revelam?

Nas cidades, as praças são órgãos de importância vital. Exercem funções materiais e simbólicas. No plano simbólico, remetem a aspectos da vida coletiva, às vivências cívicas. As praças também são espaços do poder, pois nelas, geralmente, estão os edifícios da administração pública e os monumentos. O imaginário político sempre concebe a praça como local de manifestação das massas. Assim tem sido ao longo das épocas. De fato, do povo ou do poder, a praça é um espaço privilegiado. É lugar de memória. Os nomes a elas atribuídos, pelo povo ou pelas autoridades, são muito expressivos, prenhes de significados. Evidenciam, quase sempre, a luta pela memória, pelo controle do imaginário coletivo. Assim, examinemos, com cuidado, a onomástica das praças da nossa capital. Consideremos o que ela nos revela ou esconde. Aracaju possui, conforme cadastro oficial da prefeitura, cento e setenta e três (173) praças. Um primeiro aspecto que chama atenção, no exame das praças de Aracaju, é o caráter personalista das denominações. Delas somente oito são nomes comuns ou remetem a datas históricas. O predomínio maciço é de nomes de pessoas, mortos ilustres. Passear por nossas praças é recordar “figurões”, reais ou supostos, do passado. Além do personalismo, um outro traço flagrante na nomenclatura das praças aracajuanas é o sexismo. Isto é, a pouca presença de mulheres como patronas. Conforme o catálogo, Aracaju possui doze (12) praças que homenageiam mulheres. Algumas delas, pelo menos para a maioria, ilustres desconhecidas. Pode-se afirmar que, ao menos no tocante às praças, representantes do sexo feminino são pouco frequentes. Há poucas exceções, todavia. Assim, a capital possui uma praça sob o patrocínio da heroína baiana Maria Quitéria (1792-1853) e uma outra que homenageia a Princesa Isabel (1846-1921). Há ainda uma outra praça em homenagem a jornalista Cristina Souza, profissional do jornalismo, atuante na TV Sergipe nos anos de 1990. Temos ainda uma praça em homenagem as mães, assim batizada em 1987. Como se vê, é ainda muito pouco. É preciso lembrar que as mulheres representam mais da metade da população sergipana. A julgar pelas denominações de nossas praças, é muito pouco o papel das mulheres na história da capital e de Sergipe. Como se sabe as duas personagens históricas acima evocadas, em princípio, nada tem haver com a história local. São heroínas de fora. Sobre as outras nove (9) não disponho de informações. É de se perguntar: cadê as enfermeiras, parteiras, médicas, que dedicaram suas vidas em prol da coletividade e cuja memória deve ser cultuada? Onde estão as professoras que, durante décadas, formaram gerações, dando o melhor de si? Até onde sei, nenhuma praça lembra elas. É como se o olimpo das nossas praças fosse morada, quase, exclusiva do chamado sexo forte. Cadê as nossas “mães-de-santo”, sacerdotisas dos cultos afro-brasileiros, que, anos a fio, em décadas passadas, assistiram, com apoio espiritual e material, a gente do povo? Os seus nomes não devem ser lembrados como beneméritas da cidade? Os nomes das praças aracajuanas também revelam a hegemonia do catolicismo. Significativamente, Aracaju possui duas praças que homenageiam santos católicos. Uma delas, no bairro Santo Antônio, rememora Santo Antônio de Pádua, santo muito cultuado no Brasil. Uma outra, no bairro José Conrado de Araujo, alude ao Sagrado Coração de Jesus, devoção muito difundida pelo catolicismo romanizado, na primeira metade do século XX. Como se não bastasse, temos ainda, em Aracaju, onze (11) praças que homenageiam eclesiásticos: monsenhores, bispos, papas, etc. É o apanágio do clero católico. Por outro lado, nenhuma praça de Aracaju tem como nome uma divindade do panteão afro-brasileiro. Nenhuma delas, por exemplo, homenageia Iansã, Iemanjá, Oxossi, etc. Nenhuma rende homenagem a algum pai de santo de Aracaju de outrora. Por que, quase somente membros do clero católico merecem a honraria? É preciso que nossos espaços públicos espelhem o pluralismo religioso que existe na cidade. O catolicismo não é a religião única por aqui. O espaço religioso sergipano não é assim tão monocromático. Uma outra faceta, patente na onomástica das praças de Aracaju, é a predileção por políticos. Dezessete (17) delas cultua a memória de figuras que atuaram no legislativo e no executivo. Ao que parece, os nossos edis adoram prestar homenagem a sua própria classe. Nunca esquecem os nomes de membros de sua própria categoria para figurar como denominadores de espaços importantes da nossa capital. Presidentes, governadores, deputados, senadores e vereadores, emprestam seus nomes a espaços vitais. Nossas praças são verdadeiros “palanques”, cheias de evocações a políticos. Nossas praças também evocam alguns fatos históricos da vida nacional ou estadual. Desta forma, Aracaju possui uma praça que rememora data magna da história sergipana: o dezessete de março de 1855, mudança da capital de São Cristóvão para Aracaju, pelas mãos do governador Inácio Barbosa. A praça 17 de março, foi assim batizada por lei de 05 de abril de 1949. Um outro evento da história evocado nas praças de Aracaju é a FEB (Força Expedicionária Brasileira). A Praça dos expedicionários, no bairro Getúlio Vargas, relembra a participação de “pracinhas” sergipanos na Segunda Guerra Mundial (1939-1945), atuando, junto aos aliados, na Itália. A existência de uma praça ou rua com tal nomeação não é exclusividade sergipana. Muitas cidades brasileiras possuem vias que aludem a este fato histórico. O golpe militar de 1964 também tem sua memória cravada num espaço público da nossa capital. Fica no bairro Atalaia, a Praça 31 de março. No quinto aniversário da “revolução” (1969), a câmara municipal de Aracaju achou por bem dedicar um espaço público a evocação do famigerado evento. Era então, prefeito de Aracaju, o economista José Aloísio de Campos. O breve exame aqui efetuado parece tornar pertinentes algumas conclusões: A) A toponímia das praças de Aracaju é marcada por alguns quase exclusivismos. Segmentos inteiros da história e da população são, simplesmente, esquecidos. B) Numa época em que tanto se fala em inclusão social é preciso lembrar aos nossos vereadores e ao prefeito que as nomeações dos espaços públicos devem espelhar a nossa pluralidade social. A onomástica dos nossos logradouros há de ser, também ela, inclusiva.

Publicado no Jornal da Cidade, Aracaju, 5 de março de 2011. Caderno B, p. 6. Currículo Professor do Departamento de História da Universidade Federal de Sergipe. Contato: fjalves@infonet.com.br.

Fonte: Portal UFS.

Texto reproduzido do blog: acaoculturalse.blogspot.com.br

Memorial Alcino Alves Costa


Publicado originalmente no site NE Notícias, em 05/12/2016.

Memorial Alcino Alves Costa - O Sertão tem Memória!
Por Rangel Alves *

O Sertão tem Memória! Este slogan serve para identificar bem a missão e os objetivos do Memorial Alcino Alves Costa, denominação popular da Associação Cultural Memorial Alcino Alves Costa, situada na Rua Gustavo Mello, nº 07, no centro da cidade sertaneja de Poço Redondo. Um local já conhecido por todos, pois na antiga residência familiar do saudoso sertanejo.

Surgido em 2013, numa iniciativa familiar para manter viva a memória do político (três vezes prefeito de Poço Redondo), escritor, pesquisador, compositor, poeta e radialista Alcino Alves Costa, falecido a 1º de novembro de 2012, o Memorial ao longo do tempo foi se constituindo numa referência obrigatória para todos aqueles que desejam beber em profundidade da história, da cultura e das tradições do sertão sergipano, com ênfase na saga do cangaço, a partir do acervo deixado pelo homenageado.

Na condição de filho de Alcino e incentivado por amigos, idealizei e organizei o Memorial por que senti a necessidade de um espaço onde o seu acervo e a sua memória tivessem um lugar garantido para a posteridade. Não só preservar para o futuro, mas principalmente permitir o acesso a estudantes, pesquisadores e demais interessados na sua obra e na sua devoção sertaneja. E de repente já estava ampliado para contar a saga do próprio sertão.

Assim, o acervo do Memorial foi ampliado para ser também um espaço privilegiado de contanto e conhecimento das diversas feições do sertão, incluindo seus aspectos históricos, sua religiosidade, os fazeres e os costumes antigos, bem como as tradições de um povo. Ali o interessado encontrará aspectos relacionados às revoltas sociais nordestinas, ao cangaço, à música de raiz, as tradições culturais e todo o percurso histórico que permitiu o desbravamento e a formação do sertão, bem demais manifestações tipicamente sertanejas.

O Memorial é também um espaço para reuniões e grupos de discussão, onde jovens, estudantes e todos os interessados, são convidados a ouvir palestras sobre a cultura e a história sertaneja, bem como demais temas relacionados à identidade nordestina. Diversas são as ocasiões onde grandes eventos contam com palestras de renomados professores e pesquisadores. Mesmo sem compromissos formais, pessoas ali se reúnem para um proseado e até para bebericar uma cachacinha com casca de pau.

Logicamente que sempre será um espaço de recordação de Alcino e sua obra, uma forma de reencontrar o seu mundo tão sertanejo. A saga de seu povo era o seu exercício de toda hora. E assim fez até suas forças permitirem. Com seu jeito sempre cativante de ser, sempre calçado nas suas inconfundíveis havaianas, cortando as ruas de seu Poço Redondo ou recebendo amigos de outras plagas enquanto ouvia Tonico e Tinoco, acabou se transformando em referência obrigatória acerca de tudo que dissesse respeito a sertão.

Verdade é que o político escondia no seu verso outra feição muito mais prazerosa de lidar com o seu mundo, que era a de pesquisador, poeta, colecionador de vinis da autêntica música caipira, apaixonado pela história cangaceira. O seu tio materno, Zabelê, cangaceiro do bando de Lampião, lhe servia de orgulho e inspiração. Foi a partir do interesse pelo destino do tio que foi cavando as raízes cangaceiras até se tornar num dos mais respeitados historiadores sobre o tema.

Não conformado com as mesmices nem com as inverdades escritas e asseveradas em torno da saga bandoleira, Alcino se propôs a dar outra feição à história. E conseguiu logo no primeiro livro publicado: “Lampião Além da Versão - Mentiras e Mistérios de Angico”. E mais tarde surgiram “O Sertão de Lampião” e “Lampião em Sergipe”, dentro outras obras. Mas guardava escritos para muitos outros livros discutindo, contando e recontando, o percurso daqueles valentes e tantas vezes incompreendidos homens das caatingas e dos carrascais agrestinos.

Trouxe ao presente o conhecimento de personagens importantes da história nordestina, procurou desvendar os mistérios de Angico e da epopeia lampiônica, e com isso se tornou um dos escritores mais lidos e requisitados do fenômeno cangaço. Colocou a música caipira e a viola cabocla no seu devido lugar de importância e reconhecimento. Revisitando seus arquivos, percebi o quanto de sertão existente em livros, recortes, correspondências, manuscritos, fotografias. Sertão, talvez este seja também outro nome de Alcino.

Tantas realizações não poderiam ficar apenas na memória do seu povo, nas recordações dos amigos. Como filho, esforcei-me para torná-lo ainda vivo por todo o sertão. Primeiro escrevi sua biografia com um título mais que apropriado: Todo o Sertão num só Coração - Vida e Obra de Alcino Alves Costa. Depois abri os portais de sua casa em sua memória, através do Memorial.

Foi nesta caminhada que buscamos construir o lugar da memória de Poço Redondo, do sertão, de Alcino. Um espaço onde também estará a memória de cada um, pois todos gestados de raízes que não podem ser relegadas nem destruídas pela voracidade do novo. Assim o memorial sertanejo, pois o sertão também tem viva e rica memória.

* Rangel Alves da Costa - Advogado e escritor.
Membro da Academia de Letras de Aracaju.
blograngel-sertao.blogspot.com

Texto e imagem reproduzidos do site: nenoticias.com.br

Museu Histórico de Sergipe (MHS)





Museu Histórico de Sergipe (MHS).

Em 1960, no dia 5 de março, foi inaugurado o Museu Histórico de Sergipe (MHS), no Governo de Luis Garcia. A missão é salvaguardar a memória e identidade do povo sergipano representado nos bens móveis e imóveis que compõem seu acervo. A instituição museológica é a mais antiga do estado e remonta ao século XVIII. O prédio — que já foi cadeia, hospital e escola — e o acervo desafiam o tempo para satisfação e aprendizado do público visitante.

Seu rico e diversificado acervo tem a marca dos seus curadores, os irmãos Junot Silveira e Jenner Augusto. São mobílias dos séculos XIX e XX; quadros artísticos variados; bustos de personalidades sergipanas; coleções de moedas, medalhas, louças, telefones antigos que marcaram a trajetória de Sergipe desde o período colonial; além de objetos e fotos raras de personagens do cangaço e muito mais.

Além disso, destaque para as obras do pintor Horácio Hora (1853-1890), um dos grandes nomes do romantismo brasileiro, e coleções pessoais de personagens históricos, como o do jornalista e político Lourival Fontes (1899-1967), ministro de propaganda de Getúlio Vargas.

O Museu Histórico de Sergipe se define como “uma casa de visitas” porque não é exclusivo de turistas, pois atende a um público escolar, acadêmico; também é uma “casa de pesquisas” à medida que produz conhecimento através de suas exposições, catálogos, artigos, palestras, comunicações. Seu terceiro perfil, “casa de cidadania” ganha notoriedade a partir dos projetos socioeducativos que realiza, a exemplo do Círculo dos Ogãs, que envolve as casas de terreiros de candomblé do município de São Cristóvão.

O museu ainda apresenta novidades ao público: um auditório e salas de exposições temporárias, integradas por meio do primeiro plano museográfico da história do MHS. Graças ao projeto, a instituição deixa de ser apenas um local de exposição de peças antigas para tornar-se um espaço mais funcional e abrangente, pronto para receber visitantes interessados na história, na cultura e nas artes do estado.

O museu está instalado na Praça São Francisco, na cidade de São Cristóvão, primeira capital da província de Sergipe. Vale ressaltar que o prédio do Museu Histórico de Sergipe foi tombado pelo Estado como bem de valor e preservação através do Decreto N. 22.148, de 8 de setembro de 2003.

Texto e imagens reproduzidos do site: conhecendomuseus.com.br

quinta-feira, 23 de março de 2017

O patrimônio aracajuano em estátuas: preservação e memória

Imagem reproduzida do site: bdlb.bn.gov.br/acervo
Postada por MTéSERGIPE, para ilustrar artigo.

Publicado originalmente no site do Jornal da Cidade, em 04/10/2011.

O patrimônio aracajuano em estátuas: preservação e memória.

No que tange à memória, trataremos aqui da questão dos monumentos que homenageiam personalidades sergipanas erguidas em forma de estátuas e sua relação com a memória do nosso povo.

JornaldaCidade.Net

(*) Cleciane Silva Santos Soares [clexia.fla@hotmail.com]
Joelma Dias Matias [joelmaa_dias@hotmail.com]
Márcio Souza Ferreira [king_marcio@hotmail.com]

O artigo 216 da Constituição Federal define patrimônio cultural brasileiro como bens de natureza material e imaterial tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação e à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade. No que tange à memória, trataremos aqui da questão dos monumentos que homenageiam personalidades sergipanas erguidas em forma de estátuas e sua relação com a memória do nosso povo.

O significado de patrimônio se estende pela primeira vez para as obras de arte e para os edifícios e monumentos públicos no período imediatamente posterior à Revolução Francesa, quando à população tomada pelo sentimento revolucionário destruía os vestígios do Antigo Regime. Segundo a antropóloga Regina Abreu, o patrimônio nacional é o lugar de memória por excelência, uma vez que não apenas é capaz de expressar e de sediar a memória nacional, mas, sobretudo, de objetificá-la, materializá-la em prédios, edifícios ou monumentos que podem ser olhados, visitados e percorridos.

No que se refere à memória social, o sociólogo Michael Pollak afirma que ela configura-se num campo de permanentes disputas que incidem diretamente sobre a dinâmica entre a lembrança e o esquecimento. Neste sentido, as estátuas que fazem referências aos filhos ilustres de Sergipe e que estão espalhadas em praças e pontos estratégicos da cidade de Aracaju são o objeto central das nossas discussões. Observamos aqui o estado de conservação das estátuas em bronze que homenageiam estas personalidades. Considerando-se ainda a importância dos monumentos para a preservação da memória social, vislumbrando o nível de percepção e conhecimento que os transeuntes aracajuanos possuem acerca dos personagens representados nas estátuas e suas ações. Além da consideração sobre a consciência do público acerca da relevância da preservação destes monumentos para a perpetuação da memória sobre estes “grandes homens” e da sociedade sergipana.

Para isso, aplicamos questionários a 40 pessoas de forma aleatória, divididas em quatro grupos de dez indivíduos que se manifestaram, respectivamente, sobre quatro monumentos que representam personalidades sergipanas, cujos nomes referenciam as praças onde foram instaladas: as estátuas de Fausto Cardoso e Monsenhor Olímpio Campos, no centro de Aracaju, a do Construtor João Alves, situada no bairro Industrial, zona norte da capital, e a de Tobias Barreto, localizada no bairro São José, na região sul.

A primeira estátua analisada foi a que representa o “Construtor João Alves” (pioneiro da construção civil, pai de João Alves Filho, ex-governador de Sergipe). 50% das pessoas abordadas responderam que sabem quem está representado naquele monumento, apenas 10% possuem conhecimento a respeito dos feitos desta personalidade em nosso Estado. Todos os entrevistados consideram o monumento importante para preservação da memória deste personagem e da sociedade sergipana. 80% disseram que a estátua está em bom estado de conservação, o que foi comprovado e observado por este estudo.

A segunda estátua pesquisada foi a de um dos grandes políticos do nosso Estado, Fausto Cardoso (poeta, jurista, pensador, revolucionário, sergipano que soube interpretar as mais íntimas aspirações dos sergipanos, nasceu em Divina Pastora). Sobre ela, 30% das pessoas questionadas responderam que reconhecem o sergipano representado na estátua, outros 30% possuem algum conhecimento a respeito das suas ações, 90% consideram o monumento importante para a preservação da memória deste personagem e da sociedade sergipana e 70% responderam que a estátua está em bom estado de conservação, o que também pudemos comprovar.

Sobre a estátua de Tobias Barreto (Foi um filósofo, poeta, crítico e jurista brasileiro e fervoroso integrante da Escola do Recife - movimento filosófico de grande força calcado no monismo e evolucionismo europeu - Foi o fundador do Condoreirismo Brasileiro e patrono da cadeira 38 da Academia Brasileira de Letras), 50% das pessoas responderam que sabem quem está representado naquele monumento, 30% possuem conhecimento a respeito da sua história, 100% consideram o monumento importante para a preservação da memória desta personalidade e da sociedade sergipana e 90% disseram que a estátua está necessitando de manutenção. Durante a realização desta pesquisa, pudemos perceber que realmente o espaço em torno da estátua de Tobias Barreto encontra-se deteriorado, em péssimo estado e precisando urgentemente de uma restauração.

Por fim, a última estátua a ser pesquisada foi a do Monsenhor Olímpio Campos (jornalista, sacerdote, professor e político brasileiro. Foi presidente do Estado de Sergipe de 1899 a 1902, além de senador de 1903 a 1906 e deputado federal e provincial). 20% das pessoas disseram saber quem foi o sergipano, 20% possuem algum conhecimento a respeito de suas ações, 90% consideram o monumento importante para a preservação da memória desta personalidade e da sociedade sergipana e 70% informaram que a estátua está em bom estado de conservação, também observado pelos entrevistadores.

Através desta pesquisa podemos concluir que o estado de conservação das quatro estátuas é considerado bom pela maioria das pessoas que responderam ao questionário. Além disso, elas entendem que os monumentos são importantes meios para a preservação da memória sobre aqueles personagens e da sociedade sergipana. Porém, um dado que nos chamou atenção refere-se ao pouco conhecimento que se possui acerca da história dos personagens representados naqueles monumentos. A que isso se atribui? Qual será o verdadeiro papel desempenhado pelos monumentos para a preservação da memória social entre os sergipanos? Quais seriam as responsabilidades do governo e das escolas públicas e privadas no sentido de garantir à população, via projetos educacionais, a transmissão do conhecimento e o resgate da memória sobre os grandes sergipanos?

Não cabe aqui nos determos exaustivamente sobre essas questões, porém, é importante destacar que a presença pura e simples destes monumentos nas praças da cidade de Aracaju não é suficiente para suscitar o interesse da população pelo conhecimento do passado sergipano. Para isso, a título de sugestão, é necessário que o governo e as instituições de ensino convertam estes espaços em instrumentos didáticos, desenvolvendo ações educativas, tais como: aulas não formais, com visitações e estudos in loco, que podem possibilitar uma conscientização sobre a importância destes patrimônios para a construção e manutenção da memória histórica entre a nossa população. E assim espera-se que os monumentos em forma de estátuas dos ilustres sergipanos sejam vistos, conhecidos e preservados, não somente para esta, mas para as futuras gerações. O artigo é o início de algo ainda muito maior e mais trabalhado, fará parte do Trabalho de Conclusão de Curso de um dos autores desta pesquisa.

(*) Os autores são acadêmicos do curso de Museologia da Universidade Federal de Sergipe, campus de Laranjeiras. O artigo teve a orientação do professor M.Sc. Fábio Figueirôa, como atividade da disciplina Introdução aos Estudos Acadêmicos. Este texto pode ser acessado no www.museologiaufs.com.br

Texto reproduzido do site: jornaldacidade.net/artigos-leitura

Novo Memorial de Sergipe.

Foto: Jadilson Simões- Alese.

Publicado originalmente no site da Folha de Sergipe, em 01/02/2017.

Alese irá compor acervo do novo Memorial de Sergipe.

O Memorial de Sergipe terá novas instalações. E para compor o vasto elenco que retrata a memória de Sergipe, o magnífico Reitor da Universidade Tiradentes (UNIT), prof. Jouberto Uchoa de Mendonça, esteve na manhã de hoje, 01, no gabinete do presidente da Assembleia Legislativa( Alese), Luciano Bispo, e o ofertou uma sessão exclusiva para a Alese, cenário a qual será composto pela galeria dos ex-presidentes da Casa Legislativa, bem como a trajetória política de cada um dos integrantes.

De acordo com o presidente da Alese, o professor Uchoa sempre foi gentil com a Alese. “Só temos a agradecê-lo. Realizamos no Estado o maior encontro da UNALE, a qual ocorreu nas instalações da UNIT, contamos com essa parceria. Uchoa vem a essa casa com a disposição de resgatar a história do povo sergipano, irá expor a história dos presidentes que passaram pela Casa Legislativa, a fim de, através de dados e fotos, contar a história desta casa, do nosso povo. Nesse momento colocamos também a disposição do Memorial de Sergipe à TV Alese , para que, por meio do canal aberto, conte a história do povo de Sergipe”, enfatizou Luciano Bispo.

Segundo lamentou professor Uchoa, muitos patrimônios arquitetônicos na capital viraram estacionamentos. Pensando nisso, reitor anunciou que a UNIT, em parceria com a Prefeitura Municipal de Aracaju, restaurará o prédio do Palácio Inácio Barbosa: arquitetura civil urbana, do século XXI, e inaugurado em 1920.

Uchoa ressaltou que benefício levará o Memorial de Sergipe para o Centro Histórico da capital sergipana, “ É único prédio não está restaurado, e que se encontra depredado. Nós vamos restaurá-lo e colocaremos no Memorial de Sergipe uma sessão em homenagem aos ex-presidentes da Assembleia Legislativa, são pessoas que se dedicaram e trabalharam para o bem do nosso Estado. A prefeitura de Aracaju nos convidou pra restaurar o prédio da antiga prefeitura, o Inácio Barbosa. Ele será restaurado em seis meses, e abrigará o Memorial de Sergipe, que atualmente possui mais de 20 mil objetos bibliográfico, iconográfico e museológico”.

Com muito orgulho, o professor Uchoa narrou o elenco existente no memorial. “No acervo tem peças de 12 mil anos, do doutor José Augusto Garcez, que colecionou acervo de todos os primeiros índios que habitaram em Sergipe. Temos no acervo a relação de todos os sergipanos que foram e voltaram da 2ª Guerra Mundial, e lista dos que estão no cemitério da Pistóia. Ainda, acervo de dois irmãos sergipanos, Valter e Álvaro Paz, autoridades da guerra. Onde, em 2004, Valter faria 100 anos, não teve nenhuma manifestação daqui do Estado e do país”

“Outro sergipano que foi pra guerra se oferecendo foi o sargento Zacarias, que junto com dois americanos, ganhou uma das quatro medalhas mais famosas do mundo. Morreu e só tinha a família no velório. Com um orgulho incrível, Zacarias participava dos desfiles de 7 de Setembro exibindo a medalha da guerra. Temos tudo isso preservado, junto a uma biblioteca incrível”, contou o reitor da Unit, enfatizando que, “ Ninguém ama o que não conhece. Se os jovens não veem, não sabem, como é que eles vão se preocupar e gostar?”, indagou o professor Jouberto Uchoa.

Além da nova ala da Alese no Memorial de Sergipe, o professor falou que acervo receberá peças do lutador sergipano, o Maguila, e ainda, programações exibidas há décadas pela TV Aperipê. “Nosso memorial tem um acervo ponderado, temos o acervo da Polícia Militar de Sergipe, as pinturas em pratos de porcelana e azulejo de Rosa Faria, uma arte considerada única no mundo. Não posso deixar que a nossa memória morra”, afirma Uchoa.

Na ocasião, o diretor de Comunicação da Alese, Marcos Aurélio, apresentou a planilha da Programação da TV Alese ao professor Uchoa, e revelou que alguns programas da Tv serão exibidos com o apoio da Universidade Tiradentes, aliado ao Memorial.

Sairemos de um público de 5 mil para 1 milhão com o alcance da TV Alese em sinal aberto. Com esse material do Memorial de Sergipe, iremos levar para os sergipanos todo esse acervo para que a sociedade o conheça. A TV Alese garantirá que os sergipanos de hoje e de amanhã conheçam a nossa história. A programação está sendo formatada, teremos programas que valorize os idosos, às crianças, o Meio Ambiente, o Esporte, a Educação. Enfim, serão programas com vários segmentos e que contemplarão a sociedade sergipana. A Tv Alese com o seu canal aberto irá mostrar aos sergipanos o que nós temos”, comemora o diretor.

Por Agência Alese de Notícias.

Texto e imagem reproduzidos do site: folhadesergipe.com.br

Sergipe artístico, literário e científico


Imagens simplesmente ilustrativas, postadas por Isto é SERGIPE.

Publicado originalmente no site do Jornal da Cidade, em 05/08/2013.

Sergipe artístico, literário e científico
Por: Cristiane Vitório de Souza.

A memória intitulada “Sergipe artístico, literário e científico”, redigida por Joaquim do Prado Sampaio Leite e editada pioneiramente pela Imprensa Oficial, foi encomendada por Manoel Corrêa Dantas, Presidente do Estado de Sergipe, para ser apresentada na Exposição Ibero-Americana de Sevilha. Essa exposição, com o tema “Indústria, Arte, História e Comércio”, realizada entre 9 de maio 1929 e 31 de junho 1930, tinha como objetivo reforçar os vínculos entre a Espanha e a América. Desde os tempos de Dom Pedro II, o Brasil costumava participar dessas exposições internacionais. Os políticos e intelectuais da época consideravam que era a oportunidade de evidenciar que o país, ao contrário do que os observadores estrangeiros imaginavam, caminhava a passos largos em direção à civilização. Para Sergipe, o menor estado da federação, participar de uma exposição como essa significava a possibilidade de apresentar para os mais de dois milhões de pessoas que a prestigiaram o seu progresso, representado pelo talento dos seus intelectuais.

Por que a escolha do presidente recaiu sobre Joaquim do Prado Sampaio Leite? Filho do farmacêutico Joaquim do Prado de Araújo e Dona Lídia Carolina Alves Sampaio, esse sergipano que nasceu no dia 3 de junho de 1865, em Aracaju, após estudar as primeiras letras com os professores Cipriano José Pinheiro e Manoel Alves Machado e o secundário no Ateneu Sergipense, seguiu a trajetória dos intelectuais com capital social elevado, matriculando-se na Faculdade de Direito de Recife e tornando-se bacharel em 1889.

Exerceu diversos cargos públicos em Sergipe e Pernambuco. No estado natal, ocupou a promotoria pública em Japaratuba, Itabaiana, Aracaju e Maruim e a magistratura em Lagarto e Gararu. Em Pernambuco, foi juiz em Vitória, Secretário de Polícia e advogado nos foros de Vitória, Camamu, Nazaré e Limoeiro. Também foi deputado estadual, um dos responsáveis pela elaboração da primeira Constituição de Sergipe, e professor do Ateneu Sergipense durante vários anos ensinando Literatura, Psicologia e Lógica.

Participou da criação de importantes associações científicas como o Instituto Histórico Geográfico de Sergipe, do qual foi um dos principais oradores, e a Academia Sergipana de Letras. Escreveu em diversos periódicos como Jornal do Recife, Diário de Pernambuco, Estado de Sergipe, Jornal de Sergipe, Sergipe Jornal, Correio de Aracaju, Diário da Manhã e Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. Como polígrafo, característica dos intelectuais daquele período, escreveu obras que podem ser enquadradas em diversos campos do conhecimento como o Direito, a Literatura, a Filosofia, a Etnologia, a Geografia, a História e a Psicologia.

Portanto, Prado Sampaio era um dos principais líderes da cena intelectual sergipana, prestigiado tanto pelos mais experientes quanto pelos mais jovens. Certamente, esse perfil deve ter influenciado o presidente a escolhê-lo para redigir a memória. Ainda pode ter contribuído o fato de Prado Sampaio ter publicado em 1908, “A Literatura Sergipana”, obra sobre o mesmo tema, que foi reaproveitada na elaboração de “Sergipe artístico, literário e científico”.

Prado Sampaio dividiu a obra em introdução, seis capítulos e uma conclusão. No intróito, sob o influxo das ideias cientificistas de Ernest Haeckel e Friedrich Ratzel adaptadas à realidade brasileira, esclarece que as manifestações culturais devem ser analisadas a partir dos conceitos de raça (elemento estático) e meio (elemento dinâmico), que são responsáveis pela diferenciação e integração da cultura nacional. Nos capítulos, assevera que Sergipe, tanto do ponto de vista etnológico quanto do mesológico, propicia a eclosão de talentos, que inclusive auxiliaram no desenvolvimento da literatura e da ciência nacionais, a exemplo de Tobias Barreto, Sílvio Romero, João Ribeiro, Gumercindo Bessa, Fausto Cardoso, Felisbelo e Laudelino Freire. Apresenta manifestações culturais como a poesia, a filosofia e a música, destacando os seus principais representantes e os mais significativos centros intelectuais (São Cristóvão, Itabaiana, Lagarto, Estância, Laranjeiras, Maruim e Aracaju). Porém, recorda que em “A Literatura Sergipana” afirmara que os sergipanos viam-se obrigados a emigrar em busca de prestígio em centros intelectuais mais desenvolvidos porque nosso estado ainda não tinha condições de consagrar os gênios locais, em virtude da inexistência de um público cultivado, capaz de consagrar seus talentos, de uma imprensa vigorosa, capaz de torná-los conhecidos em outros pontos do país, de bibliotecas e academias opulentas e de um sistema de ensino renovado, essenciais para o desenvolvimento da atividade intelectual. Em “Sergipe artístico, literário e científico”, o autor mostra-se mais otimista, pois observa que algumas décadas depois a imprensa, a biblioteca e a educação apresentavam-se mais evoluídos, oferecendo aos intelectuais nativos o ambiente adequado para o desenvolvimento de suas atividades. Considera que o campo intelectual local atravessa “uma fase de alentado revigoramento e largas esperanças”. Conclui que Sergipe, apesar de ser um estado acanhado do ponto de vista territorial, é privilegiado em matéria de talento e que graças a ele é possível vislumbrar um porvir luminoso.

A reedição da obra “Sergipe artístico, literário e científico”, de Joaquim do Prado Sampaio Leite, que passa a integrar a Coleção Biblioteca Casa de Sergipe, criada a partir de um convênio entre a Universidade Federal de Sergipe e o Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, é uma importante contribuição para os estudos sobre a cultura sergipana. A leitura desse texto de sabor cientificista permite a um só tempo conhecer um pouco da arte e da literatura de Sergipe no Império e no alvorecer da República e compreender como as ideias de cientistas cultuados na Europa e no Brasil foram adaptadas por um homem de ciência para explicar o desenvolvimento cultural do seu torrão natal (...).

Texto reproduzido do site: jornaldacidade.net/artigos-leitura

quarta-feira, 22 de março de 2017

Praça Fausto Cardoso: Patrimônio Histórico de Aracaju


Publicado originalmente no site da PMA, em 24/03/2010.

Praça Fausto Cardoso: Patrimônio Histórico de Aracaju.
Por Amâncio Cardoso*

Se fosse eleito um núcleo urbano para Aracaju, ele deveria estar inscrito na praça Fausto Cardoso. Ela é uma das primeiras áreas públicas demarcadas pelo engenheiro Pirro em seu desenho fundador da capital, em 1855. Desde os primórdios da cidade que a antiga praça participa da vida aracajuana como um lugar de significativa importância e de diversas funções. Anotemos, assim, algumas histórias que atestam tais qualificações.

Nos idos de 1868, o então presidente da província relatou que aterrara a "Praça de Palácio" para diminuir os pântanos e charcos que alagavam Aracaju. Neste período, onde hoje está a praça, havia um largo de areia em que se situava o primeiro palácio do governo provincial. Daí a expressão "Praça de Palácio" como primeiro topônimo do lugar. Atualmente, onde funcionava o antigo palácio está a Delegacia Fiscal, do Ministério da Fazenda, na esquina da face norte da praça com a rua da Frente. Quanto ao serviço de aterro, informado no documento, era de extrema importância à época, pois se acreditava que as águas estagnadas no areal sofriam evaporação e infectavam o ar, produzindo gases miasmáticos, os quais provocariam doenças epidêmicas.

Desse modo, Aracaju e, especificamente, a antiga praça eram um quadrante encharcado que precisou de muito aterro. Prova disso é o registro de um ilustre visitante de nossa capital, oito anos antes, em 1860, o Imperador D. Pedro II (1825-1891). O monarca assim escreveu sobre os charcos da novel cidade: "botaram terra sobre a areia das ruas: não contavam com a chuva de hoje que formou muita lama." .

Por coincidência, foi na antiga "Praça de Palácio" que se hospedaram o Imperador, a Imperatriz e suas comitivas. Além disso, o desembarque imperial ocorreu "em frente à Praça de Palácio" num atracadouro de madeira, hoje conhecido como Ponte do Imperador, outro marco histórico-arquitetônico contíguo à praça. Sendo assim, enquanto a ponte serviu de portão de entrada para Suas Majestades, o velho largo se prestou como ante-sala. Pois, de seus aposentos, no antigo palácio (hoje Delegacia Fiscal), transformado em Paço Imperial durante a visita, o monarca vislumbrou a praça apinhada de súditos em sua reverência. Até hoje, esta insigne visita marca a memória dos sergipanos, materializada no largo da praça e monumentos contíguos: "ponte" e "palácio" imperiais.

Ainda no século XIX, foram plantadas, no descampado da praça, palmeiras imperiais importadas; talvez para lembrar a visita de D. Pedro II. Este foi o primeiro esforço de arborização em Aracaju, depois complementado com o plantio de oitizeiros e figos-benjamin; trazidos do Horto Florestal do Rio de Janeiro. A importação de árvores exóticas obedecia a um movimento estético das cidades européias, vistas como modelo civilizador.

Exemplo de embelezamento da Fausto Cardoso, com intenções modernizadoras, ocorre no início do século XX, quando são construídos os coretos que até hoje existem. Estes equipamentos arquitetônicos, além de embelezar, intensificavam a sociabilidade, pois ali ocorriam as retretas - apresentações de banda de música em praça pública -; os discursos políticos, que os utilizavam como palanques; e as missas campais. A partir de 1920, ano do centenário da emancipação política de Sergipe, foram construídos também os passeios externos e internos; instalados os postes de iluminação; assentados novos bancos vindos dos Estados Unidos. Por conta disso, o lazer, o civismo e o bem-estar serão novos serviços oferecidos pelo velho largo com seus modernos mobiliários.

Sobre seu nome, a vetusta praça experimentou vários topônimos, além do "Praça de Palácio", já foi chamada "do Imperador"; "da República" e finalmente, em 1910, "Fausto Cardoso". Aliado a este último topônimo, ela recebeu em 1912 outra inovação: a primeira estátua pública de Aracaju. Pois o assassinato de Fausto Cardoso (1864-1906) foi eternizado na memória popular no local em que o deputado e advogado falecera. Assim, praça documenta, desde então, uma das tragédias mais lembradas da história política de Sergipe.

Quanto ao episódio da instalação da estátua, o escritor Genolino Amado (1902-1989), lembra que naquele dia a praça estava numa "aglomeração como nunca se viu". Tanto para cultuar, segundo Amado, o mito político; como para "ver e ouvir" o então afamado magistrado Gumercindo Bessa (1859-1913) em sua última manifestação de eloqüência, pois o orador estanciano raramente saía à rua, muito menos para discursar em praça pública.

Outro memorialista da cidade, Mário Cabral (1914-2009), lembra da praça em um de seus momentos mais significativos em termos estéticos. Admira-se Cabral, em 1948: os "jardins [da Fausto Cardoso] são magníficos. Possui dois coretos monumentais, uma fonte luminosa, além de outras obras de arte". Nesse ambiente agradável, continua o memorialista, "aos domingos e feriados, à tarde e à noite, ao som da música, ora da polícia, ora do exército, as moças e os rapazes fazem o seu desfile de elegância e futilidade". Pelo que indica Cabral, o espaço da praça nestes eventos era dominado pela juventude classe média e/ou abastada que desfrutava de um lugar central e privilegiado para ostentar seus símbolos exteriores de poder social e econômico, tais como carros novos e roupas elegantes durante o "footing" pela bela praça.

Neste período, além dos poucos carros particulares, a Fausto Cardoso era ponto dos "carros de praça" (atuais táxis). Aliás, para o memorialista Fernando Porto (1911-2005), as expressões dicionarizadas no Aurélio "carros de praça" (táxi) e "chofer de praça" (motorista de táxi) teriam sido originadas em alusão aos carros e motoristas estacionados na praça Fausto Cardoso. Segundo outro memorialista de Aracaju, Murilo Melins, em agosto de 1933, "o ponto dos carros de praça foi transferido [da rua de Laranjeiras] para a Praça Fausto Cardoso", que recebeu o nome de "Praça de Carros 131", número de telefone que servia aquele local. Fica patente que os modernos serviços públicos tinham na velha praça seu lugar assegurado. Era e ainda é ponto de referência para todos.

Mas as memórias de Melins registram também outras tragédias de que a praça foi testemunha. A primeira delas diz respeito ao torpedeamento dos navios mercantes na costa sergipana em 1942, durante a 2ª. Guerra Mundial. Da sacada do palácio para o povo assustado na praça, o interventor Augusto Maynard (1886-1957) discursara pedindo "calma, e muita calma" aos sergipanos atônitos. O segundo episódio trágico foi o linchamento do líder trabalhista Lídio Paixão, "próximo à estátua de Fausto Cardoso", durante um ato público no dia do suicídio do presidente Getúlio Vargas, em 24 de agosto de 1954. Como se vê, entre momentos de lazer, festas e romances, a praça parece ter a sina de testemunhar tragédias emblemáticas, como a do personagem que lhe empresta o nome.

No aspecto cultural, uma das manifestações mais tradicionais da religiosidade aracajuana, e que possui íntima relação com a praça Fausto Cardoso, é a procissão de Bom Jesus dos Navegantes, no dia 1º de janeiro. Durante o préstito católico, a praça se torna uma passarela para o embarque e desembarque da charola do Bom Jesus na Ponte do Imperador. Muitas fotografias, tiradas ao longo do século XX, documentam o uso da praça pelos devotos durante a centenária procissão.

No campo político, no entanto, o evento mais marcante, e que teve a praça Fausto Cardoso como palanque, foi o da campanha das "Diretas Já". Este movimento selou o início da derrocada do Regime Militar após vinte anos de ditadura; sem eleições diretas, inclusive para presidente da República. A campanha se espraiou por todo o Brasil na forma de grandes comícios. Em Sergipe, o evento se realizou num domingo, 26 de fevereiro de 1984. Segundo o Jornal da Cidade, a Fausto Cardoso acolheu cerca de trinta (30) mil pessoas. Dentre as autoridades presentes, estavam o então presidente nacional do PT, Luiz Inácio Lula da Silva (atual presidente do Brasil); e também o então presidente do DCE/UFS, Edvaldo Nogueira (atual prefeito de Aracaju), em cujo mandato se realizou a última reforma de nossa praça.

No âmbito das artes, a Fausto Cardoso foi musa de vários poetas. Mas destaco o poema de Jacintho de Figueiredo, escrito à época das comemorações do centenário de Aracaju, em que ele chama a praça de "coração da cidade". Eis os versos: "Na praça principal, - coração da cidade -/ (Como é bom recordar o que de bom havia!)/ Um viçoso jardim, e ornando-lhe a vaidade,/ Esplêndida calçada em torno se estendia./ Nas noites de domingo a invariabilidade/ Da Banda no coreto em estos de harmonia;/ Ao longo da calçada, a vida, a mocidade,/ Distraidamente, em grupos, conversava e ria". O poeta cantava um tempo liricamente idealizado que, para ele, já se finava: das retretas nos coretos; do jardim viçoso; da esplêndida calçada; das alegrias da mocidade. Era como se a velha praça estivesse se extinguindo; como se as mudanças não perpassassem por seus jardins.

Mas a praça vem se revitalizando, a exemplo da última reforma sofrida este ano. Remoçada, o "coração da cidade" voltou a pulsar, recebendo prostitutas; convidando turistas; acolhendo mendigos; esperando estudantes; suspirando com os namorados; bocejando com os comerciários; legislando com os parlamentares e acompanhando as passeatas. Enfim, voltando a ter vida e a ser, como dizia o poeta, a "praça principal".

*Professor do Instituto Federal de Sergipe (IF-SE) e sócio do IHGS. E-mail: acneto@infonet.com.br

Referência bibliográfica

1- BULCÃO. Antônio de Araújo d'Aragão. Relatório apresentado à Assembléia Legislativa. Aracaju: Typographia do Jornal de Sergipe, 02 de março de 1868.

2 - SANTOS NETO, Amâncio Cardoso dos. Sob o signo da peste: Sergipe no tempo do cholera, 1855-1856. Campinas/SP: IFCH-Unicamp, 2001. (Dissertação de Mestrado em História).

3 - Diário do Imperador D. Pedro II na sua visita a Sergipe em Janeiro de 1860. Revista do IHGS. Aracaju,

4- Relatório da Viagem Imperial à Província de Sergipe em janeiro de 1860. Bahia, Typographia do Diário, 1860. p. 18 e passim.

5 - BARBOZA, Naide. Em busca de imagens perdidas: Centro histórico de Aracaju, 1900-1940. Aracaju: Funcaju, 1992. p. 43-54.

6 - AMADO, Genolino. Um menino sergipano. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978. p. 210.

7 - CABRAL, Mário. Roteiro de Aracaju. 3. ed. Aracaju: Banese, 2001.p 204. (1ª edição em 1948; e 2ª em 1955).

8 - PORTO, Fernando. Alguns nomes antigos do Aracaju. Aracaju: J. Andrade, 2003. p. 178.

9 - MELINS, Murilo. Aracaju romântica que vi e vivi. 3. ed. Aracaju: Unit, 2007. p. 85.

10 - MELINS, Murilo. Aracaju romântica que vi e vivi. 3. ed. Aracaju: Unit, 2007. p. 45.

11 - "Comício reúne mais de trinta mil pessoas". Jornal da Cidade. Aracaju, n. 3641, 28 de fev. de 1984. p. 02.

12 - FIGUEIREDO, Jacintho de. Retretas. In: Motivos de Aracaju. 3. ed. Aracaju: Funcaju, 2000. p. 69.

Texto e imagem reproduzidos do site: aracaju.se.gov.br

Bombardeio em Sergipe faz 65 anos (2007)

Imagem reproduzida do site: portalfeb.com.br/documentario
Postada por MTéSERGIPE, para simples ilustração.

Publicado originalmente no site Destak News Brasil, em 27/08/2007.

Bombardeio em Sergipe faz 65 anos (2007).
Por Célia Silva.

Aracaju, 15 de agosto de 1942. Os navios mercantes da Marinha brasileira, o Baependy e o Araraquara, são atingidos por torpedos disparados pelo submarino alemão U-507 a cerca de 20 milhas da costa sergipana. Menos de oito horas depois, às 4h15 do dia 1,6 o Aníbal Benévolo também é torpedeado nas águas de Sergipe pelo mesmo submarino. Um cenário macabro surgia já na manhã do dia 16 entre o litoral sul do Estado e o Mosqueiro.

O soldado da Força Expedicionária Brasileira (FEB) Rubens Ribeiro Cardoso, 85, estava fazendo a patrulha do litoral sul do Estado com mais 20 homens. Soldado da infantaria do 28 BC, era encarregado da defesa das praias. Na manhã do dia 16, viu os primeiros destroços dos navios, sobreviventes e mortos surgirem na areia.

"Fazia a patrulha de segurança nas proximidades da foz do rio Real, cobrindo o litoral. Não ouvimos nenhum estrondo, nem clarão, mas altas horas da madrugada nos deparamos com destroços do navio e com os primeiros náufragos. Fiquei apavorado com a cena. Minha mãe e meu irmão estavam viajando no Baependy e aquele só poderia ser ele, o Baependy. Corri para avisar do ataque ao interventor da época, coronel Maynard Gomes, e a outra parte da tropa foi buscar ajuda com pescadores e gente do lugar. Foi horrível", disse o ex-combatente. Só no dia seguinte ele soube que os parentes que estariam naquele navio teriam desistido de última hora da viagem marítima e optado por virem de trem.

O antigo soldado da FEB relembra os fatos com emoção na sede da Associação dos Ex-Combatentes do Brasil, secção Sergipe, no Centro de Aracaju. Disse que não se esquece das cenas que viu naquela madrugada e no decorrer dos dias seguintes. "Corpos destroçados, de crianças, inclusive. Uma barbaridade. Tenho tudo na minha memória", diz, com a voz embargada e as mãos trêmulas.

Zé Peixe tinha 15 anos na ocasião dos ataques. José Martins Ribeiro Nunes já nadava muito e convivia entre os marinheiros da Capitania dos Portos, em Aracaju. No período de 16 a 19 de agosto "mudou-se" para a praia, hoje conhecida como praia dos Náufragos, ajudando nos trabalhos de resgate de corpos e de sobreviventes.

"Quando acordei, soube da notícia e fui até lá para ajudar. Era triste ver aquilo. Barcos destroçados, gente morta", disse Zé Peixe, ao lembrar que a partir daquela data tudo mudou. "Não podia usar luz nos navios e Getúlio declarou guerra a partir dali", acrescentou. O Brasil envia as primeiras tropas para a guerra no início de 1943.

Três meses após o ataque, o soldado Rubens Ribeiro Cardoso deixa o Exército ao ser convocado para trabalhar em uma entidade internacional de apoio às Forças Armadas. A "Honra e Conselho Francês" era encarregada de abastecer os navios que seguiriam para o campo de guerra levando mantimentos, armamentos e tropas.
Mais de 500 mortos

Os bombardeios sucessivos ocorridos há 65 anos aceleraram o ingresso do Brasil na II Guerra Mundial (1939 a 1945). De acordo com o diretor do Arquivo Público de Sergipe, o historiador Manoel Prado, Aracaju foi a única capital das Américas a sentir tão perto um bombardeio em Guerra Mundial.

O número de mortos e sobreviventes diverge entre os documentos oficiais. Dados que constam da obra "Agressão – Documentário dos fatos que levaram o Brasil à guerra", publicada em 1943 pelo Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), apontam para 551 mortos nos navios Baependy, Araraquara e Aníbal Benévolo. "É preciso que seja feita uma revisão na história, pois os dados divergem. Precisamos fazer uma releitura", acentuou a historiadora, autora de estudos sobre o assunto, Maria Nely Santos.

Comoção geral.

Mais duas embarcações e um veleiro foram torpedeados – Itagiba, Arará e Jacira – essas em águas do litoral baiano, entre os dias 17 e 19 pelo mesmo submarino, tornando o período de 15 a 19 de agosto um marco triste na história sergipana. Nos dois primeiros, navios de cabotagem, desapareceram 59 pessoas. Já do Jacira, pequena embarcação, não houve baixas.

Nesses três bombardeios, os navios passavam próximos a Sergipe, aumentando a comoção de sergipanos com os torpedeamentos. "Até então, as notícias da guerra chegavam a Aracaju através dos jornais ou do rádio. Era tudo muito distante, mas de repente ela tornou-se muito próxima a nós", disse a historiadora.

"Em Aracaju, o ataque ao Baependy provocou reação emocionada na população", complementou o diretor do Arquivo Público do Estado. Manuel Prado, que elaborou uma cronologia dos 150 anos de Aracaju e disse que o dia 15 de agosto foi dos mais importantes e aterradores já vividos na capital.

Muros de casas de italianos e alemães ou seus descendentes foram pichados e pessoas agredidas. Uma das vítimas da histeria que tomou conta principalmente de estudantes foi a família do italiano Nicola Mandarino. O casarão em que morava, nas imediações do Parque Teófilo Dantas, Centro da cidade, foi apedrejado, invadido e o piano destroçado. Os familiares tiveram que fugir às pressas com medo da horda. Em Florianópolis e Pernambuco, agressões semelhantes ocorreram. "Eram ataques à chamada quinta coluna, grupos que apoiavam o nazismo", falou Manuel Prado.

II Guerra Mundial teve 300 sergipanos.

"Quando quiser bons combatentes, bravos, disciplinados e cumpridores de seus deveres e missões, mandarei buscá-los no Brasil. Sua eficiência é tamanha que em dez dias seus recrutas se transformarão em veteranos, aptos a qualquer tipo de batalha", general Mark Clarck, comandante do V Exército Aliado na II Guerra Mundial. Essa mensagem foi encaminhada ao Brasil logo após o término da grande guerra e se refere aos pracinhas, soldados brasileiros que lutaram no front.

O advogado e ex-combatente da Força Expedicionária Brasileira (FEB) Sizenando Azevedo Faro é presidente da Associação dos Ex- Combatentes do Brasil/Sergipe. "O Exército Brasileiro participou da II Guerra Mundial com 25 mil homens, mas nem todos embarcaram na mesma data", disse Sizenando. Ele embarcou de trem para Salvador e de lá seguiu em navio mercante para o Rio de Janeiro, onde finalmente viajou para a Itália para ajudar nos combates em Monte Castelo.

Segundo ele, de Sergipe partiram cerca de 300 homens da FEB, entre eles Zamardille Leão Brasil e o soldado Claudionor da Silveira Barreto. "Desses, quase todos voltaram", relembra. Hoje, a associação que preside, criada um ano após acabada a guerra, congrega 44 membros ativos. Já a entidade nacional, com sede no Rio de Janeiro, foi fundada logo depois de declarada a paz.

Jackson de Oliveira Figueiredo, 81, foi marinheiro de guerra e integra hoje a Associação dos Ex-Combatentes de Sergipe. "A população não tem noção do que seja a guerra", disse. Ele serviu durante três anos e três meses à Marinha de Guerra do Brasil fazendo o comboio de navios mercantes por águas brasileiras e estrangeiras.

Sargento Zacarias, um bravo.

O sargento Zacarias tem as marcas da guerra no corpo e na alma. Ele lutou na II Guerra Mundial e ficou conhecido pelos atos de bravura. É o quarto homem no mundo a receber a Medalha Silver Star, concedida pelas Nações Unidas por atos excepcionais praticados em guerras.

Aos 84 anos, Zacarias Izidoro Cardoso altera momentos de lucidez e lapsos de memória quando volta ao front imaginário. É Napoleão Bonaparte, um soldado em plena guerra, um herói de novo. Mora no Asilo Rio Branco, zona sul da cidade, onde é assistido por uma equipe médica especializada paga pelos filhos. "Papai preferiu morar no asilo, mesmo depois de ter morado comigo", disse um dos dez filhos do sargento, o publicitário Augusto César Maia Cardoso.

Ele fala pelo pai. "Papai embarcou para a Itália do Rio de Janeiro, em janeiro de 1944. Participou na VI Companhia do 2º Batalhão do 11º Regimento de Infantaria e regressou ao Brasil 18 meses após passar por 19 cirurgias nos Estados Unidos", contou Augusto César. Ao chegar à cidade de Maruim, com várias cicatrizes e mutilações, foi aclamado como herói.

Augusto César conta que o pai incluía o frio como um dos inimigos que enfrentou. O combate mais grave foi a Tomada de Montese, na Itália. "É onde ele cai ferido e é resgatado dos destroços pela enfermeira Jane Simões de Araújo, uma sergipana de Riachão do Dantas; veja que coincidência", disse.

Ele conta que o pai integrava o grupo de voluntários que saía às cegas em campos minados para deixar os soldados do batalhão passar em segurança. Chegou a ser apelidado de "O Louco de Ipisa", por esses atos e o único soldado brasileiro a receber a Medalha Silver Star.

Texto reproduzido do site: destaknewsbrasil.com.br

Testemunha relembra dias seguintes à tragédia

Navio “Baependy”

Publicado originalmente no site da Folha de S. Paulo, em 08/07/2007.

Testemunha relembra dias seguintes à tragédia.

Do enviado a Aracaju/SE.

Filha do faroleiro das praias de Atalaia, Robalo e Mosqueiro, na costa de Sergipe, Salvelina Santos de Moraes, 75, presenciou na segunda quinzena de agosto de 1942 a chegada à terra dos destroços e cadáveres dos navios Araraquara, Baependy e Aníbal Benévolo.

Tinha 10 anos.

Passados 65, ela ainda lembra detalhes da tragédia e guarda até o cheiro que acompanhava o pai quando chegava, após recolher e enterrar as vítimas.

"Quando meu pai chegava em casa, a gente tapava o nariz por causa do fedor. Ele tinha que tirar toda a roupa e tomar banho para depois falar com a gente. Ele saía a cavalo com os militares. Ficava dias sem vir em casa", contou ela à Folha em entrevista em sua casa modesta no bairro Santo Antônio.

O pai dela era Teodoro José dos Santos. Depois dos torpedeamentos, a Capitania dos Portos e o Exército enviaram equipes às praias em busca de sobreviventes e corpos. Santos era o guia dos militares. As praias eram desertas, praticamente virgens.

Salvelina conta que, em agradecimento, o capitão dos portos de Aracaju autorizou o pai a levar para casa duas peças de tecidos que deram à praia. A mãe fez calções, vestidos e camisetas para ela e os irmãos (dois meninos e quatro meninas). Roupas de ficar em casa, explica.

"Os panos já não eram grande coisa. Como ficaram no mar, piorou. Não dava para fazer roupa de sair, não. Para mim, ela fez um vestidinho", disse.

"O povo se revoltou".

Outro fator familiar liga Salvelina à tragédia. O tio Henrique Francisco dos Santos, marinheiro, sobreviveu ao naufrágio do Baependy e ainda salvou a passageira cearense Vilma Castello Branco, irmã do tenente-coronel do Exército Humberto Castello Branco, que dois anos depois estaria guerreando na Itália e que presidiu o país de 1964 a 1967.

Salvelina e os irmãos tiveram autorização para ir até a praia de Atalaia ver os destroços. Não esquece das covas coletivas e de corpos inchados e apodrecidos. "Ficamos com muito medo. Era uma coisa horrível. Tinha mulher, criança. A praia estava cheia. Só se viam cadáveres, era corpo demais."

Aos 15 anos, José Martins Ribeiro Nunes estava no colégio quando chegaram as notícias sobre os torpedeamentos.

"Os estudantes foram para a rua, atacaram os italianos e alemães. O povo se revoltou", disse ele, que é conhecido em Aracaju como Zé Peixe, prático famoso por acompanhar os navios até a barra do rio Sergipe e dali voltar nadando para a terra. (ST).

Texto reproduzido do site: folha.uol.com.br/fsp/mais

O naufrágio do Araraquara

Navio Araraquara.

Publicado originalmente no site da Folha de S. Paulo, em 08/07/2007.

O naufrágio do Araraquara.

Relato do oficial da Marinha Mercante Milton Fernandes da Silva descreve o torpedeamento, o afundamento e a luta pela sobrevivência no mar de 4 náufragos do Araraquara; dos 142 a bordo,131 morreram.

Por Sérgio Torres*

Escrito há 65 anos pelo oficial da Marinha Mercante Milton Fernandes da Silva, texto até agora inédito relata o torpedeamento, o afundamento e a luta pela sobrevivência no mar de quatro náufragos do navio brasileiro Araraquara, atacado por um submarino alemão na costa de Sergipe na noite de 15 de agosto de 1942.

Havia a bordo, oficialmente, 142 pessoas. Só 11 sobreviveram, entre elas Silva, o único oficial que conseguiu alcançar a terra. Ele era o primeiro piloto, terceiro homem na hierarquia de comando da embarcação.

Os naufrágios do Araraquara e de seis outros barcos brasileiros entre 15 e 19 de agosto daquele ano, no litoral sergipano e da Bahia, resultaram em intensa comoção popular e pressão sobre o presidente Getulio Vargas (1883-1954).

Houve 468 mortos, pelo menos. Nas ruas, nos jornais e nas rádios de todo o país se exigia um posicionamento duro do governo. Em 31 de agosto, Getulio declarou guerra à Alemanha, à Itália e ao Japão.

O relato de Silva permaneceu engavetado do dia em que o escreveu, 15 de setembro de 1942, já de volta ao Rio, a pouco antes de sua morte, em 1994, aos 78 anos. Adoentado, ele xerocou o relatório de quatro páginas datilografadas, recortes de jornais da época e papéis sobre o caso.

Fez quatro dossiês e os entregou às filhas, Vera, Lúcia e Altair Maria, e ao filho, João Luiz.

É um documento rico em informações e sem sentimentalismos. Aos 27 anos, o primeiro piloto relata o momento em que o Araraquara foi atingido duas vezes por torpedos de um submarino (mais tarde identificado como o U-507, da Marinha alemã), o tumulto a bordo, as pessoas atirando-se à água, o naufrágio. Conta como conseguiu agarrar-se a tábuas e como resgatou três sobreviventes.

O oficial descreve o que se passou durante os dois dias em que flutuou no mar. Como dois náufragos se desesperaram e morreram afogados. Como ocorreu a chegada à terra, a nado, já que as tábuas foram destruídas pelas ondas.

E, ainda, a caminhada da praia aonde chegaram até o socorro em uma fazenda. Por fim, narra o atendimento hospitalar e a volta ao Rio, onde morava.

Navio misto (passageiros e carga) da empresa Lloyd Nacional, o Araraquara zarpou do Rio em 11 de agosto, rumo a Cabedelo (PB), com escalas em Salvador, Maceió e Recife. Cronologicamente, assim começa o relato do primeiro piloto.

Segundo ele, havia a bordo 177 pessoas (81 tripulantes e 96 passageiros). A informação diverge do divulgado pelo governo à época, de que o navio carregava 142 pessoas. Erro que pode ter sido premeditado, na tentativa governamental de reduzir o impacto da tragédia. Os números oficiais foram divulgados pelo DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda), criado três anos antes para censurar a imprensa e que, conforme historiadores, manipulava o noticiário.

"Estampido seco".

O texto relata que às 21h do dia 15, perto de Aracaju, "com o clarão da mesma à vista", o Araraquara foi atingido pelo primeiro torpedo. "Eu dormia no meu camarote quando fui despertado por um estampido seco, seguido de estremecimento do navio", contou ele. O segundo torpedo pegou o navio "aproximadamente um minuto" depois.

"Ordenei então aos passageiros, que estavam desorientados, que fossem para o outro bordo, e procurassem salvar-se da melhor maneira possível", escreveu a respeito da inclinação do navio, do sumiço dos botes e do iminente afundamento.

O oficial passa então a narrar o que fez para salvar-se. Primeiramente, atirou-se ao mar, "certo de que seria impossível" sobreviver. A seguir, nadou "auxiliado pelos vagalhões". Depois, assistiu ao naufrágio, com o Araraquara "ficando completamente em pé e desaparecendo".

Silva relata ter sido puxado pelo vácuo da embarcação indo ao fundo, mas que, mesmo bebendo bastante água salgada misturada a óleo e recebendo pancadas de destroços, conseguiu voltar à tona, onde se segurou a um pedaço de madeira que boiava.

Sobre a madeira, ele recolheu o maquinista Erothildes Bruno de Barros, 31, o moço de convés Esmerino Elias Siqueira e o passageiro Oswaldo Costa, tenente do Exército. Ao redor, apanhou destroços que boiavam, amarrando-os para que formassem uma espécie de jangada improvisada. Ele conta que o mar "os aproximava cada vez mais para a terra" e que assim se passaram a noite do dia 15 e todo o dia 16.

"Aproximadamente às 2h do dia 17 o marinheiro [Siqueira] começou a dar sinais de perturbação mental, pedindo alimento, dizendo ter ouvido bater a campainha para o café. (...) Em seguida, desesperado de fome e sede, atirou-se ao mar, sendo impossível qualquer salvação."

O tenente foi o próximo "a demonstrar o mesmo sintoma". "Tentei acalmá-lo, foi impossível, atirou-se n"água. (...) Agarrei-o pelas botas, conseguindo colocá-lo novamente sobre as mesmas [as tábuas]. No entanto, poucos minutos depois, colocando-se numa posição agressiva, dizendo que eu e meu companheiro estávamos embriagados, (...) fez-se novamente ao mar, sendo, desta vez, impossível salvá-lo."

O mar levava os náufragos para a praia até que, "ao clarear do dia", as tábuas foram destruídas pela arrebentação em bancos de areia. Silva e Barros caíram na água e passaram a nadar. Às 9h, atingiram uma coroa de pedras.

"Calculando que na preamar [maré alta] talvez não desse pé na dita coroa, e que estávamos fracos, pois havia 36 horas que não dormíamos nem nos alimentávamos, convenci meu companheiro de que não devíamos descansar e sim nadar para a terra, da qual já avistávamos os coqueiros."

Eles alcançaram a praia de Estância (cidade vizinha a Aracaju) às 15h. "Exausto, deitei-me na areia para dormir, julgando ter meu companheiro feito o mesmo, quando fui acordado para beber água do coco verde que ele havia apanhado."

Reanimados, puseram-se a andar, sendo abrigados na fazenda da Barra, após uma caminhada que Fernandes da Silva estimou em 2,5 léguas (cerca de 16,5 km). De lá, foram levados para a cidade de São Cristóvão e, depois, Aracaju.

O oficial permaneceu hospitalizado por dez dias. Enquanto isso, mais nove náufragos do Araraquara chegaram às praias sergipanas: as passageiras Eunice Baumann e Alaíde Cavalcante, que perdera marido, três filhos pequenos e um irmão; o passageiro Caetano Moreira Falcão; e os tripulantes José Rufino dos Santos, José Alves Melo, José Correia Santos, Francisco José dos Santos, José Pedro da Costa e Maurício Vital.

* Enviado Espedial a Aracaju/SE.

Texto reproduzido do site folha.uol.com.br/fsp/mais